quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Eu não sou uma leitora; mas, afinal, o que é ser um leitor?


Antes do texto propriamente dito, talvez seja necessário dizer duas coisas, que podem ser lidas após o término do texto em si (mas estão aqui simplesmente pela importância que dou a elas):
 Isto não é um comentário sobre o livro A livraria dos finais felizes, apesar das citações e da referência ao final; isto é apenas um desabafo sobre não ser uma leitora. Por favor, não julguem a obra por este meu texto e pelas meras citações (sequer estou acusando o livro de algo, embora ele realmente tenha pontos negativos); é só uma associação meramente infeliz.
2 – Este texto é um mero desabafo (sobre uma opinião minha, sem fundamentação teórica), então não esperem muito. Melhor, não esperem coisa alguma. E deixo um imenso agradecimento a Helena, que me expôs a incrível palavra "estereótipo", porque eu realmente não me lembrava que ela existia direito – e também por me deixar aliviada ao saber que está realmente tudo bem em não estar lendo.


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Primeiramente, devo dizer que após terminar a graduação obtive um período que me deu tempo para tudo. Como trabalho um só dia por semana (e devo dizer que adoro este trabalho), passei a ter todos os outros seis totalmente à disposição. No começo, isso é ótimo. Foram umas férias desejadas e bem-aproveitadas. Mas, já no segundo mês, final de janeiro e início de fevereiro, isso começou a ser prejudicial. E é compreensível se pensar que, depois de se acostumar a uma rotina corrida, muito tempo livre pode soar preocupante. Com tanto tempo, podes pensar à vontade, e observar e pensar e pensar e pensar, e, é, se decepcionar (não é à toa que o excesso de tempo livre pode deixar as pessoas tristes, decepcionadas ou mesmo se sentindo inúteis). Bom, parte desse tempo foi utilizado em redes sociais – algo que pode ocupar horas e horas e, às vezes, não ser proveitoso em nada, no final –, nas quais alguns estereótipos circulam e se propagam facilmente. Já via essas imagens e mensagens há muito tempo, mas só tendo tempo de sobra foi que realmente comecei a pensar que a imagem – ou melhor, estereótipo – que propagam de um leitor e de um leitor voraz está muito longe mesmo do tipo de leitora que eu sou; quer dizer, talvez eu já não seja mais uma leitora. Talvez possam ser aquelas mensagem exageradas (de propósito ou não), mas que são engraçadas e que "todos" gostam... E só depois percebes que, na verdade, são longe da tua realidade, não te representam em nada e tudo que queres é arranjar outra realidade. Digo, ao menos eu senti a necessidade de mudar de "espaço" – pela imagem que passam, eu deixei de me sentir uma leitora. Afinal, se ser um leitor é o que eles tanto propagam – e as editoras no meio disso, porque algumas parecem amar compartilhar essa imagem de "verdadeiro" leitor –, eu sou o quê? Talvez seja o que eles tanto chamam de ressaca, mas já há alguns meses, eles não me encantam mais – e não é porque não sei o quanto eles são incríveis –, não me sinto envolvida na leitura, naquela vontade de "só mais um capítulo". Bem... Talvez eu simplesmente leia, e só... Sem ser "leitora".

"Enquanto seus colegas provocavam e eram provocados, entalhavam símbolos sem sentido nas carteiras ou faziam marcas nos armários uns dos outros, ela vivenciava paixões incontroláveis, mortes, alegrias, terras estrangeiras e dias passados. Outros podiam acreditar que estavam presos em uma velha escola do ensino médio, mas ela havia sido uma gueixa no Japão, andado ao lado da última imperatriz chinesa pelos cômodos fechados e claustrofóbicos da Cidade Proibida, crescido com Anne e os outros habitantes de Green Gables, presenciado vários assassinatos, amado e perdido amores milhares de vezes." (BIVALD, 2016, p. 21).

Dizem que leitores viajam pelos universos dos livros, que entram nos mundos, sentem cheiros, se apaixonam, vivem como se fossem outras pessoas, possuem milhares de vidas etc. Eu não. Eu continuo no meu mundinho. Não sinto cheiro do campo, da floresta, do mar ou sei lá qual cenário. Não me apaixono pelos personagens, e considero aquelas pequenas sensações de afeição ou raiva da mesma forma que sinto qualquer situação semelhante e distante que me contam no dia a dia, de forma passageira (e nada profunda). "Ah, mas lesse tal livro há meses e ainda falas irritada sobre ele!", bem, sim, da mesma forma que irás sempre reclamar de um serviço mal feito – ou ao contrário, de um serviço que adorasse. Não sou tão apegada aos meus livros que arreganho os dentes quando alguém sequer os toca; não sou tão ciumenta com eles a ponto de não emprestar, pelo contrário, eu ofereço muito os meus livros para que outros os leiam – eu só peço que cuidem bem deles e não risquem (porque eu particularmente não gosto disso), mas isso acontece com qualquer coisa que se empreste a alguém; já pensou emprestar uma roupa ou mochila, um CD ou DVD, o que for, e voltar rasgada(o) e marcada(o) – de modo que não há como consertar? Claramente com cara de que não foi cuidado... Pois é. Não é ciúme, é ser cuidadoso; é querer que a "coisa" dure por um bom tempo, afinal, é o seu dinheiro ali investido. (E não acho que seja necessário dizer o quanto alguns livros são absurdamente caros...)

E, principalmente, não me sinto "acompanhada" só porque tenho um livro. Porque ele é só um livro, e só. No máximo, ele afasta um pouco a solidão, mas é porque quem está lendo muda o foco de sua atenção e não porque a solidão não existe mais. Quando a obra acaba e o efeito vai embora, a solidão vai voltar; e tudo bem que seja "só pegar outro livro" e então esse outro livro irá tapar o buraco da realidade de novo. Porém, dizer que não se fica sozinho na companhia de um livro, me parece, às vezes, uma forma vaga de se sentir acompanhado quando não se está; porque acaba-se por dizer que se está acompanhado no intuito de dizer que não és uma pessoa solitária, quando, na verdade, é um momento de uma concentração tão significativa que ter ou não alguém por perto é irrelevante – até porque é uma atividade que se faz sozinho (exceto quando é leitura coletiva, claro; e olha lá!). E sozinho significa sem companhia, certo? Apesar de que sem companhia não significa estar solitário; sequer é difícil encontrar momentos em que lendo ou pensando nos concentramos tanto que nos esquecemos do mundo à nossa volta, mas não nos sentimos sós. Enfim, o que muda é que sua atenção se dispersa do que o cerca, e isso é maravilhoso quando acontece, porque é como se conseguisses 'fugir' desse mundinho – consegues 'ver' além do que os olhos te mostram. Só que não é uma viagem no tempo e no espaço, é uma fuga temporária da percepção do mundo à sua volta.

Claro que não entra aqui em questão a imensa maravilha que são os livros e seus conteúdos, as possibilidades de aprendizado e reflexão, toda a questão de dialogar com a obra ou qualquer coisa no gênero. Não é esse o foco deste meu texto que é mais um desabafo (que decidi tornar público), espero que fique claro.

Meu foco, então, é pôr em questão aquela ideia de que: "Um leitor de verdade lê muito, só fala disso, vive de livros!". Pensar que estereótipos estão aí e ficarão aí para sempre, talvez; que apesar de fazermos determinada atividade ou ter dado estilo não implica em assumirmos tudo que envolve um estereótipo, só significa que as pessoas podem ter um pré-conceito de ti (aquela famosa primeira impressão). Implica, claro, em alguns desentendimentos e algumas sensações de "não pertenço a isso", talvez até algumas raivinhas ou tristezas... Mas, no fim, o que é que não precisa ser melhorado, não é?

De acordo com esse estereótipo, eu não sou uma leitora. Só que, num país em que o índice de leitura não é tão alto quanto seria o ideal, qualquer pessoa que leia alguns livros, cinco, dez ou vinte ao todo, já pode ser considerado um leitor. Se estiver com um livro na mão enquanto anda na rua ou no ônibus, se bobear já dizem que és um leitor voraz.


Então, o que é ser um leitor, não é?


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No fim, escrevi este desabafo para comentar o quanto as brincadeiras e "memes" com leitura só enfatizam um estereótipo que não reflete todos os leitores. Para dizer e talvez mais para afirmar a mim mesma que está tudo bem passar um mês inteiro sem ler; está tudo bem ler menos de dez páginas por dia; está tudo bem ler apenas quando der vontade; e está tudo bem se quiseres se considerar um leitor lendo pouco. (Mas o que é esse pouco, aliás? O que seria o muito? E onde entra a divisão dos tipos de leituras? Por ano, importa mais um livro que lhe faça pensar ou dezenas que não lhe façam pensar? E como definir que livro o faz pensar, se tudo depende da nossa subjetividade?).

Ler pode ser uma atividade prazerosa (não significa que é), e realmente é uma pena quando a pessoa perde a vontade de ler. Espero que todos que passem por isso logo reencontrem a vontade de ler. Mas que quando leiam de novo, o façam por gosto, e não obrigação. Já que também é algo instrutivo (para a mente, que se exercita, mesmo que o livro não o faça pensar muito), agradável e é uma arte que merece ser apreciada imensamente (ênfase, aqui, à literatura).

"Talvez isso prove que eu estava certa sobre livros e pessoas: livros são fantásticos e provavelmente vêm com uma cabana própria na floresta, mas será que seria divertido ler livros fantásticos se não pudéssemos falar sobre eles, conversar sobre eles, citá-los constantemente?" (BIVALD, 2016, p. 128).


BIVALD, Katarina. A livraria dos finais felizes. Tradução de Carol Selvatici. 1. ed. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2016. 336 p.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Um experimento amoroso, de Hilary Mantel

Em meus discursos pode chegar a soar repetitivo minha menção de como acho as pessoas incríveis. Por suas ações, seus pequenos gestos, palavras, olhares e sorrisos, por suas visões/perspectivas curiosas do mundo e, também, entre outras coisas, pela importância que têm. Nem tudo é feito conscientemente; às vezes sequer sabemos a importância ou a diferença que fazemos até que nos digam. Situação igual seja para algo positivo seja para algo negativo. Seja um ato simples, um cumprimento, seja algo mais 'denso', como um motivo para alguém seguir em frente. Seja como for, acontece, porém, que nem sempre conseguimos ver esse lado incrível das pessoas, porque não as conhecemos. Sequer conhecemos a nós mesmos, às vezes. Mesmo convivendo por anos e anos – ou a vida toda. Algumas pessoas, fortes, densas, costumam causar um impacto maior na vida alheia, às vezes na forma de um grande alívio e auxílio, às vezes numa forma confusa de sufoco, que se mistura com sensações por vezes ainda mais confusas e difíceis de explicar como raiva, inveja e desprezo. A protagonista de Um experimento amoroso, a jovem Carmel, acaba sendo influenciada por uma pessoa assim. Mesmo na ausência, a presença que ela teve trouxera uma perspectiva diferente no decorrer de seus anos escolares, uma visão diferenciada, que lhe impunha sensações diversas, de dever, de companheirismo e, num misto de distanciamento, devido a seu modo cada vez mais independente e "regrado", de confusão, causada pelos ditos de sua mãe, além de sensações de repulsa, nojo e raiva. Sem saber, via-se sufocada, queria distância e não lhe permitia tal 'regalia'. E apesar de esta ser a parte que a mim mais interessou na obra inteira, por incrível que pareça, não é tratada como "foco".



Numa síntese, a obra conta a história de Carmel, Karina e Julianne, três moças distintas que acabam por estudar juntas no Holy Redeemer – um colégio prestigiado – e optam pelo mesmo pensionato durante suas respectivas graduações. Não é, porém, uma história de amizade que perdura no decorrer dos anos, mas sim relacionamentos que surgem, se afastam, e eventualmente se reencontram, sem jamais voltar a ser como já foram. Durante a leitura, próxima à metade da história, já comecei a me questionar sobre o que a orelha me fez esperar da obra. Parecia um pouco distinto até ali, pois não há um foco no "romance" ou tanto na liberdade que possuem, embora isso muito se contraste com a infância da protagonista, de família católica muito religiosa. A liberdade, os relacionamentos abertos e os perigos disso, que a contracapa parece apontar, são, na verdade, parte integrante principalmente da segunda metade em diante, quando o foco da narrativa volta-se ao momento em que as personagens estão na universidade, no qual há mais personagens e uma visão mais clara do início da vida adulta das garotas do pensionato. Bem, se separar a obra em duas partes, eu gostei muito mais da primeira, apesar de que mesmo esta só possui seu desfecho nos últimos capítulos, que integrariam a segunda parte. 

“Talvez eu devesse lamentar minha juventude desperdiçada, ter pena de mim mesma por ter-me divertido tão pouco. Mas carpe diem é um sentimento vazio, agora que todos nós vivemos tanto tempo.” (p. 130).

Em grande parte até a metade da obra, Carmel nos apresenta aos poucos sobre sua infância, como conheceu Karina – aos quatro anos de idade, sendo ela basicamente sua vizinha  e Julianne – já por volta dos dez anos, no Holy Redeemer – e como é ou era o relacionamento entre elas. Também demonstra um pouco sobre sua inserção na escola, seu contínuo descobrimento da situação de Karina e a imensa influência que ela fazia sobre si – ainda que parte disso tenha sido "imposto" pela mãe de Carmel, que de algum modo se impressionava com a pequena Karina, em parte devido à situação da família dela. Enquanto Carmel é vista como uma criança que não necessita fazer nada na casa ou nos deveres "por ter quem o faça", Karina é o oposto: tendo os pais trabalhando em muitos turnos e não parando muito tempo em casa, todo o serviço é deixado para ela, que desde pequena aprende a "se virar" e cuidar de tudo sozinha, inclusive com as compras do mercado. Isso, contudo, não a impede de ser uma criança estudiosa, inteligente; de certo modo, isso a faz criar uma certa dependência de si mesma, certa confiança e, ao mesmo tempo, um denso pessimismo. Por outro lado, enquanto a mãe da protagonista quase que inveja/admira aquela criança tão responsável e esperta, Carmel não faz o mesmo, dado que sente uma influência diferente, por vezes querendo se distanciar desta. Em posições diferentes, ambas são submetidas a seguir o que lhes é imposto, e ambas sentem os impactos disto, embora a autora não exponha a nós, leitores, a visão da Karina, a vida que ela levou e como a encarou. O pouco que sabemos é da visão e compreensão da narradora, que pouco sabia da densa vida de sua 'vizinha'. Possível spoiler: mesmo quando é mencionada a situação da mãe de Karina, que aparentemente adoeceu e se tornou incapaz de trabalhar, não é dito o que de fato ela tem ou como isso realmente impactou Karina.

“Agora que estávamos estudando o sistema feudal, eu estava numa posição melhor para compreender a perspectiva de Karina sobre a vida. Ela acreditava em hierarquia e nível, e tinha uma profunda descrença na igualdade dos homens. Karina acreditava em autopreservação através de artimanhas, em poupar o futuro, através da conservação de seus esforços e de nunca desperdiçar o fôlego. Ela não acreditava em justiça, ou pelo menos agia como se a justiça fosse um luxo; ela não acreditava em manifestar suas opiniões. Karina era lenta e persistente em seus esforços e punha mãos à obra.” (p. 121).

Aos poucos, quando ambas passam a estudar em Holy Redeemer, Carmel começa a se distanciar de Karina. Nesse distanciamento tem-se só pequenos fragmentos do que Karina foi se tornando; forte – nos dois sentidos que essa palavra pode ter aqui – quieta, isolada etc. Contudo, essa distância – que não era física, pois mesmo após se formarem na escola passaram a morar no mesmo pensionato – pesava, numa densidade que só é compreendida a partir das vidas que elas levaram, do (des)conhecimento que uma tem da outra. A isso é interessante considerar a época em que a história se passa, durante a década de 60 e início da década de 70. Uma época que ao mesmo tempo que permitia liberdades ainda esbanjava uma visão religiosa, conservadora e em mudança; passando-se na Inglaterra e em Londres, vê-se também uma questão cultural, embora numa proporção bem menor. Um ponto abordado na obra é a crescente utilização da pílula anticoncepcional pelas moças; o que lhes dá uma liberdade que, se não há cuidado, causaria-lhes grandes problemas. Nisso, é claro, há um pequeno debate sobre o aborto. Isto, porém, é um foco do que separaria como a segunda parte da obra.

“E apesar disso, a proximidade com Karina, ver sua figura andando com passos pesados em meio ao tráfego e à fuligem de Londres, a presença de seu nome em nossas bocas – todas essas coisas me levavam desamparada de volta ao passado, as recordações me puxando com a força e a firmeza lisa de uma corrente de aço, cada elo duro e reluzente e obstinado, de maneira que fui arrancada para fora de meu corpo frágil, pálido, de dezoito anos, e forçada a viver, como vivo hoje enquanto escrevo, dentro de minha pessoa aos dez anos de idade, a pele rosada mas rígida de medo, no ônibus a caminho do exame de admissão para o Holy Redeemer.” (p. 89).

A história toda é narrada muitos anos após os acontecimentos citados, e sabe-se disso logo na primeira página, em que Carmel comenta sobre uma notícia de jornal sobre Julia, sua companheira de quarto no pensionato, uma psicoterapeuta, que tratava de garotas com anorexia. Aliás, essa narrativa, que é um olhar para o passado, tendo uma visão do futuro, já se podendo pensar e refletir sobre o ocorrido, sempre me cativa, e com esta obra não foi diferente. Já havia lido algo da autora, O gigante O'Brien [The Giant, O'Brien – 1998], que foi publicado poucos anos depois de Um experimento amoroso [An Experiment in Love – 1995], mas sem dúvidas há grandes distinções entre elas. Diria que em Um experimento amoroso a escrita é mais elaborada, parece ter um ar mais fluido, complexo, que traça a história com nós mais caprichados e enfeitados, esboçando um retrato da vida das jovens, ainda que deixando muito a ser dito, muito nas entrelinhas, por assim dizer. Não que a outra obra não seja boa, é bastante interessante. Porém, há todo um ar diferente – o eixo da obra é distinto –, no qual o protagonista mescla uma imagem intelectual com uma objetificação, num enredo também pesado e distinto, cujo foco é menos o protagonista que a atmosfera do tempo em que se passa, dos personagens além dele. Nesta há um teor diferenciado e que me atraiu mais, as (possíveis) protagonistas, embora não mais densas, são mais detalhadas e exploradas. Como O'Brien, Karina é uma personagem que me interessou bastante, mas ambos, apesar de importantes, são retratados como que a distância, um reflexo do que são. Apesar desse detalhe, não posso deixar de mencionar como a narrativa de Mantel é fluida, mas pesada, com certo ar melancólico e vago, com detalhes que parecem não ter importância, mas que unidos esboçam bem a cena, as personagens e suas ações, e proporcionam, ao todo, uma obra impressionante. Certamente poderia ter sido mais explorada em alguns aspectos, e realmente senti falta de compreender melhor o que aconteceu com a Karina em todos aqueles anos. Mas este é um dos detalhes que, às vezes, faz com que a narrativa em primeira pessoa nos deixe certo vazio: não podes saber o que o narrador não sabe.

“Uma vez que se começa a lembrar – não é assim? – uma imagem dá origem a uma outra; elas correm em sua cabeça para todas as direções, animais fugitivos desentocados de seus abrigos. A memória não é um carretel, não é um filme que se possa rodar para trás e para a frente de acordo com a vontade: é aquele relance de pele surpreendida, o escorregar de uma seda entre os dedos, a textura duplicada de cabelo ou osso. É uma imagem, borrando, apanhada em movimento: como numa de minhas fotografias de família, antes que as câmeras se tornassem tão simples e seguras que qualquer idiota poderia capturar o momento.” (p. 16).

Numa espécie de vai e vem sobre fatos da época da universidade e da época da escola, vê-se sobre o que, de fato, é a história. Num primeiro momento, incluindo nisso a força da passagem do tempo e das mudanças decorrentes disso, tem-se a relação de Karina e Carmel e suas respectivas mães. Em relação às meninas, ainda entra o âmbito escolar, os estudos e a pressão de não fracassar (principalmente no que se refere ao Holy Redeemer). Por outro lado, nesse ínterim, tem-se a relação de Carmel com a própria mãe, religiosa e exigente. Apesar de obediente, Carmel aparentemente não tinha uma relação muito próxima com ela; o que parece ser reforçado com as constantes menções de sua mãe sobre Karina e sua família – cuja história é um mistério. Já aqui vê-se relacionamentos diferentes, amores diferentes, familiares. O outro lado da história é visto já mais próximo ao olhar do tempo do pensionato, em que o convívio naquela espécie de liberdade proporciona dificuldades e relacionamentos diversos – além de que se vê uma distinção inclusive na condição financeira de cada uma e do que o pensionato, aparentemente precário, lhes oferece. A dependência da família se torna algo distante fisicamente, embora a pressão de cada costume familiar continue pesando sobre as moças. Em reflexões breves, mas fortes, sobre a liberdade, o trabalho, a juventude e a vida num todo, é interessante ver as outras experiências que cada uma das moças retira dali. Um dos exemplos é a visão de que muitas ali, apesar de estudarem muito, no fim só queriam encontrar um marido; uma revolta sobre isso num determinado capítulo faz uma divisória dos pensamentos da época – embora ainda presente nos dias de hoje –, e não é surpreendente a palavra feminismo surgir umas duas vezes no decorrer da obra. Porque a narradora vê esses dois lados da moeda, e com uma visão já de seu futuro, expõe sua discordância com algumas das moças com quem conviveu. Enfim, toda a obra abarca diferentes visões do amor e ambos os lados que eles englobam. O que me fez pensar que o título, embora abarque bem certa parte da obra e faça sentido, não abrange o que poderia ser sua essência. Porque esse experimento, mesmo que envolva o amor, em suas diferentes formas, não é amoroso, num todo, porque é também sofrido, marcado por desentendimentos, mágoas e distâncias. Não é um romance água com açúcar, nem mesmo um livro leve. Pode ser experimento de ou no amor, mas não é amoroso – que querendo ou não é muito mais associado à ternura e ao afeto do que à ideia de ser relativo ao amor num todo.

“Agora, não gostaria que pensassem que esta é uma história sobre anorexia. [...] Digamos então que é uma história a respeito de apetite: o apetite em seus vários aspectos e dimensões, suas perversões e decadência, suas estranhas inversões e recusas. Isto é o suficiente por enquanto.” (p. 66).

Num geral, não posso dizer que a edição seja ruim, mesmo não tendo gostado do título, da capa e da contracapa – gostei da orelha, ao menos. Talvez o problema tenha sido apenas minha expectativa ou a minha visão da história que não fechou com o foco que deram; talvez eu não tenha focado no que eles consideraram principal. Falha minha, fazer o quê... Quanto à edição, ainda, só tenho que comentar que vi alguns poucos errinhos de revisão, mas que não chegam realmente a incomodar. Quanto à história, tenho que concordar em parte com a fala da contracapa, que diz que lamentaremos a obra ter acabado tão rápido. Acontece, é claro, que isso ocorre do fato de o final ter um desfecho muito rápido, num ritmo um tanto diferente do que a história conduz. Isso é, dos dez capítulos, apenas no último tem-se o que se pode chamar de clímax e desfecho, ambos no mesmo capítulo. É um acontecimento um tanto chocante, o que faz com que, sim, terminou rápido demais! Porque poderia muito bem ter explorado mais aquele acontecimento, o que veio depois, ou ao menos algumas reflexões a mais do tal incidente – comentar mais disso seria spoiler. Mesmo assim, a obra é encantadora. Enfim, apesar de tudo isso, não sei se recomendo... Ainda que seja um livro impressionante, minha recomendação fica apenas àqueles que se interessam em conhecer alguma obra da autora ou que ficaram curiosos pela obra.

“Estava na hora de fazer planos para o futuro; eu oscilava entre pensar que poderia fazer qualquer coisa com minha vida e que não poderia fazer nada.” (p. 137).

MANTEL, Hilary. Um experimento amoroso. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Record, 1999. 240 p.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Édipo em Colono, de Sófocles

Este texto (e o livro comentado também, só para constar) contém spoilers de Édipo Rei.
Estão avisados. ✌


Recentemente me deparei com alguns textos à la autoajuda, estilo século XXI, sobre quem somos ou deixamos de ser e porquê; sobre tudo que nos dizem, nos impõem e nos fazem acreditar; sobre tudo que nos afasta de nós mesmos; sobre hoje em dia ser fácil se distanciar de sua própria essência, de se perder de si mesmo, de deixar de ser. Sumir, mas continuar presente no mundo; uma casca vazia. Esvaziada aos poucos, seguindo um ritmo que parece imposto pela sociedade. Uma sociedade que atua quase como uma criatura viva, com suas regras e aromas; que se mostra, sorri e chama-nos a viver nessa farsa que estimula a um círculo vicioso de perdas. Se se deixado levar por esse sorriso, essa ilusão, o indivíduo, em sua ingenuidade e cegueira, é levado a se privar de seu maior bem: a vida. Porque o suicídio por vezes é um ato carregado de ilusão que o indivíduo assimila sem perceber – e o suicídio pode ser aquele outro também, pode ser ambos, o físico e o psíquico (por que não?). Não é fraqueza, é quase um desespero, um último lamento de alguém que não conseguiu viver além daquele ponto. Por quê? Porque o mundo, aos poucos, atuando por meio de criaturas chamadas grupos sociais, foi podando o que mais deveria importar a um ser humano: a sua própria essência. É um tema batido, clichê, sem nada que precise ser acrescentado; mesmo porque o que se necessita não é um discurso "novo", e sim um "renovado", que consiga atingir quem já alcançou sua própria cegueira. Pessoas que, mesmo sem perceber, se renderam a ilusões, a números de curtidas e likes, falsos elogios, aparências e, mesmo, a uma espera desesperada por uma pessoa que lhe dê a mão e lhe tire da apatia e do sofrimento. Pessoas que já deixaram de sonhar, desanimadas com o mundo cada vez pior que vimos a cada dia. E o livre-arbítrio, de que temos posse, acaba sendo sufocado, pelos outros e por nós mesmos.

Esse livre-arbítrio nos permite oscilar entre ações consideradas boas e más; nos permite sair cada vez mais de um estereótipo de sujeito a partir de sua classe social. Porque apesar de tudo, mesmo que não numa porcentagem admirável, as pessoas começam a se importar com o conteúdo  mesmo que por vezes em discursos vazios, mas a ideia está se propagando. O sujeito é e está aparentando se tornar complexo, não dependendo exclusivamente de sua hereditariedade e do meio em que vive. Porque esse sujeito, complexo e pensante, tendo seu livre-arbítrio e sua capacidade de raciocínio consegue refletir e pensar no que quer da vida, consegue sair de onde está, mudar-se, enfim, atuar sobre si e sobre a sociedade. Estamos num século que não é mais só a religião que move as pessoas, é uma questão bem mais moral; aceitamos nosso livre-arbítrio, usando-o ou não. Se existe um destino, as pessoas começaram a acreditar que podem mudá-lo, podem alcançar seus sonhos mais impossíveis, desde que acreditem e sigam em frente, persistam e não sejam, é claro, pisoteados demais pela "realidade". Há, porém, histórias e sociedades regidas pela crença de um destino, de um "tudo já está escrito e destinado a ser". Na história de Édipo é assim. Um destino é traçado, e nada que façam o mudará; nenhuma corrida desesperada do ser humano pode mudar o que foi proclamado pelos deuses, pelo oráculo de Apolo.

Talvez, dependendo da perspectiva, minha introdução não tenha feito o menor sentido. Assim foram para mim os textos complementares da edição que li; falavam do que se sucedera séculos após a produção de Sófocles sem mais ter uma ligação direta com sua obra. E assim como esses textos, minha introdução surgiu de um motivo, que alguns concordarão, outros, não. A fatalidade na obra de Sófocles é um elemento mais que essencial: é o que faz as engrenagens da obra se mexerem. E parece-me necessário entender isso para melhor compreender a história de Édipo. Justamente porque temos, atualmente, uma ideia (quase) totalmente oposta, que parece excluir a chamada fatalidade, mesmo porque não sabemos o que se sucederá, só temos hipóteses (que podem estar certas, ou não). Por outro lado, toda essa ideia de livre-arbítrio ou destino acaba se enredando com as ações e os sentimentos humanos. A energia que a move pode não ser mais a mesma, mas as peças, o ser humano, são as mesmas. Seja o destino, seja a sociedade, esse sujeito racional vai continuar tendo seu livre-arbítrio, meio restrito, mas tudo bem. Se em Édipo o Oráculo punha suas cordas em marionetes – que por mais que tentassem fugir estavam inevitavelmente presas por suas cordas que lhe dão vida –, hoje em dia a sociedade, e a moralidade, age semelhante – impondo padrões que ainda afetam quem não o segue. Enfim, isso tudo pode ser só uma viagem minha. E quanto a história? Pois bem...


Édipo em Colono é uma espécie de continuação de Édipo Rei, e ambas são tragédias escritas por Sófocles (que viveu por volta de 496 a.C. - 406 a.C.). Então, convém recapitular alguns acontecimentos anteriores a essa suposta continuação, iniciando por Laio, o pai de Édipo. Rei de Tebas, e casado com Jocasta, Laio descobre-se amaldiçoado, segundo os oráculos de Apolo: dizem-lhe que um filho seu o matará, tomando-lhe o trono e se casando com a própria mãe. Obviamente Laio não gosta nem um pouco disso e decide, é claro, não ter filho algum. Porém, Jocasta engravida e dá à luz um menino. Temendo o futuro, o rei manda que matem a criança. Não o fazem. Pela história que li – mas parece haver divergências nesse ponto – um servo abandona a infeliz criança perto de um campo onde pastores circulavam; faz isso, porém, "prendendo" os pés do infeliz. Salvo por esses pastores – ou será que eram viajantes? Não tenho certeza, faz tempo que li Édipo Rei (na primeira fase de Letras, lá em 2013...); de todo modo, a ideia é parecida –, o menino é entregue e adotado por um casal de outra cidade, que lhe dão o nome de Édipo, que significa "pés inchados". Já crescido, porém, sem saber que é adotado, ouve a mesma profecia que Laio ouvira, dizendo ele mataria seu pai e se casaria com a mãe. Querendo evitar seu destino – assim como Laio –, Édipo foge e acaba por se deparar, em uma encruzilhada, com a "comitiva" do rei tebano, sem saber desse detalhe. Alguns "desentendimentos" levam-no a matar o rei. Continuando seu caminho, encontra a esfinge, que assolava Tebas, e desvenda-lhe o enigma, espantando-a e salvando os tebanos. Em gratidão – olhem que povo querido – a cidade lhe oferece a mão da rainha, então viúva, Jocasta. Sem ter conhecimento do parentesco que os une, casam-se e têm alguns filhos – Polinices, Etéocles, Ismena e Antígona. Anos depois, Tebas é assolada novamente por uma praga. Em ação, o oráculo de Apolo, por intermédio de Tirésias, diz a Édipo que a paz retornará quando o assassino de Laio receber o devido castigo. Nisso, toda a verdade vem à tona, e lhe sucede o suicídio da rainha, em horror à descoberta, e a cegueira de Édipo, que, em cólera, arranca os próprios olhos em punição pelo crime cometido. De início, o próprio Édipo pede exílio de Tebas, pedido que não é atendido – naquele momento. Tendo se passado um bom tempo desses acontecimentos é que tem início Édipo em Colono, no qual o protagonista, então exilado de Tebas – sendo que não desejava mais tal exílio –, e cego, novamente segue o que lhe dizem os deuses e ruma à Atenas.

A história num todo é bem curta, o que torna realmente difícil comentá-la sem spoilers. Talvez mesmo contando seria um comentário pequeno... Enfim, de início vê-se Édipo sendo acompanhado por sua filha Antígona, que lhe presta imensa ajuda, mais do que se é esperado de uma mulher, à época. Pode-se sentir certo ressentimento de Édipo nesse sentido, isso é, que seus filhos, homens, aqueles que lhe deviam ajudar e agir de acordo com o esperado, foram aqueles que o puseram para fora de Tebas, lhe deixando na condição de mendigo sem pátria. Esse mesmo sentimento é o que o faz amaldiçoar seus filhos depois. Ademais, tendo já decorrido um bom tempo – que não se faz ideia de quanto foi – desde que fora exilado, Édipo demonstra ter passado por muita coisa, e refletido sobre isso também. Ao ponto de não mais se considerar culpado pelos crimes que cometera, pois fora tudo sem seu conhecimento. Nesse ponto, achei interessante uma nota de rodapé que menciona que um assassinato não era considerado um crime a ser punido e tudo o mais se fosse cometido em "legítima defesa". Que foi o que ocorreu com ele ao matar Laio.

"Só mais tarde, depois de minha aflição se ter já acalmado e que eu percebera que a cólera me tinha levado a infligir-me um castigo demasiado severo para meus crimes, é que a cidade me enviou violentamente para o exílio." (p. 58).

Tendo chegado ao bosque das Eumênides, Édipo pede para que consiga falar com o rei de Atenas, para pedir-lhe como que uma permissão para ali permanecer, pois se encontrava em terreno sagrado das deusas. Aliás, embora um tanto esperado – e óbvio, a depender da perspectiva –, a obra é permeada pela crença em inúmeros deuses – a conhecida mitologia grega –; em Atenas, vê-se o culto a Poseidon, por exemplo. Alguns outros deuses são mencionados, mas, a meu ver, a melhor menção à mitologia ainda aparece pelas falas sobre Hades. Já que a presença da morte é que faz a engrenagem desta obra se mover. Sabe-se, poucas páginas após o início da história, que Édipo está velho e sua morte já é prevista. Antes de conseguir falar com Teseu, rei de Atenas, ele encontra Ismena, sua outra filha, que lhe comunica a situação de Tebas e de seus dois irmãos: Eteócles, que então assumia o trono tebano, e Polinices, expulso pelo irmão e que passara a residir em Argos, preparando-se para atacar Tebas e restituir seu lugar ao trono. Vê-se, então, que a maldição sobre Tebas ainda não teve fim; dessa vez, só na posse do corpo de Édipo é que se verá novamente tranquila. De modo a fugir da fúrias dos deuses, alguém vem buscá-lo; melhor dizendo, Creonte, irmão de Jocasta.

"Que prazer se encontra em amar os que rejeitam ser amados? Se alguém te recusasse um favor desejado com instância ou um auxílio qualquer e só te concedesse quando, satisfeito o teu desejo, já nada desejavas e o favor deixara de ser favor, certamente havias de achar inútil o benefício." (p. 74).

O enredo é basicamente este. Diferentemente de Édipo Rei, em que há revelações alarmantes e grandes conflitos, incluindo-se aí principalmente as descobertas de Édipo, seus crimes de parricídio e incesto, em Édipo em Colono a história não possui cenas tão "reveladoras", o que, contudo, não a deixa ser uma peça menos viva. Parece-me até uma obra que intercala mais o sofrimento advindo dos tormentos passados, além da confirmação, mais uma vez, da impossibilidade de fugir do destino e o confronto com o outro. O "confronto" que Édipo tem com Creonte, seu ressentimento com seus filhos e a aceitação de sua própria morte, simbolizando o fim de sua vida amaldiçoada, mas não a maldição de sua família. Ponto este, por sinal, que nos faz pensar acerca da culpabilidade que ele realmente tinha ou não, à merce dos julgamentos da época. Seus crimes já estavam previstos antes mesmo de nascer, o lhe fez ser apenas uma peça, como num tabuleiro de xadrez, seguindo as ordem do jogador que lhe dispõe os movimentos a serem obedecidos. E, por outro lado, nos faz pensar sobre o destino e o livre-arbítrio. Ademais, não é difícil associar isso à ideia tão enraizada de "filho de peixe, peixinho é" e àquela ideia de antes de nascer já se pôr um padrão e um destino quase imutável a uma criança, a depender de sua família e das possibilidades que lhe são ofertadas. Sendo filho de um pai amaldiçoado, teve-a para si, sem escolhas. Ou teve: a de fugir do destino e então selá-lo. Até se pode pensar, será que não o sabendo, o teria cumprido?

"Diz-me: se um oráculo fez saber a meu pai que ele seria morto às mãos dos filhos, como poderás, com justiça, atribuir-me a culpa a mim, que do pai e da mãe não havia ainda recebido o germe da vida e não tinha, então, vindo à luz? Se depois, tendo nascido para minha desgraça, nas circunstâncias em que nasci, entrei a brigar com o pai e, sem conhecimento do que fazia nem de quem era meu adversário, o matei, que direito tens tu para censurar esta involuntária ação?" (p. 84).

A leitura da obra em si é bem rápida, pois são só cerca de 80 páginas, sem descrições de ambiente e coisas afins, já que se trata de uma peça de teatro – embora seja importante considerar que as falas são um pouco mais "densas", "complexas" e não tão fáceis de serem compreendidas. Por ser um clássico, tem uma linguagem diferenciada, que dá à peça de Sófocles certo glamour. Apesar de eu não ser fã de peças assim, visto que prefiro muito mais uma boa prosa, tenho de dizer que é uma leitura interessante, diferente, que vale a pena ser feita, caso haja interesse na história infeliz de Édipo. Aliás, a história de Édipo em Colono é considerada parte do ciclo tebano, que envolve as duas peças sobre ele que mencionei e a peça sobre Antígona, sua filha, cujo destino, também, é trágico. Pelo que é mencionado nos textos complementares, tanto Édipo quanto Antígona são personagens que aparecem em várias outras obras de outros autores – que eu ainda não li, e não pesquisei muito, então não posso comentar –, mas que são mais conhecidas pelas obras de Sófocles. Curioso, não?

"Ó filho caríssimo de Egeu, os deuses são os únicos que não envelhecem, nem jamais lhe sobrevêm a morte; mas quanto ao resto, tudo é destruído pelo tempo, a que nenhuma coisa resiste. Perece o vigor da terra e do corpo humano; morre a confiança e surge em vez dela a desconfiança. E o mesmo espírito não reina jamais entre os homens, nem entre cidade e cidade. Porque hoje a estes e mais tarde àqueles a amizade transforma-se-lhes em ódio e, depois, de novo em amizade." (p. 68).

Não sei como são as outras edições dessa obra, nem se também possuem textos complementares e afins. É possível. Bem, na edição que li, de 2005, da Martin Claret, há quatro textos complementares: um antes da obra e três após. No primeiro temos um visão geral das obras de Sófocles, incluindo uma espécie de resumo de Édipo em Colono – quem odeia spoiler então, fique avisado, está cheiinho, cheiinho; sobre a história da Antígona também. Após a obra há um sobre Sófocles, um sobre teatro e um sobre tragédia. Todos são textos particularmente interessantes e trazem visões que vem apenas a acrescentar sobre esse mundinho do teatro e de suas peças. Entretanto, cabe ressaltar alguns poréns. A começar que o primeiro texto é um pouco exaustivo, principalmente por ser todo em itálico. Umas boas vinte páginas em itálico, antes de sequer ter lido a história em si. Muito animador, por sinal. 

"Suas personagens podem ser altivas e violentas, sofrer todas as dores, mas não conhecem baixezas ou grosserias; são sempre nobres e dignas de respeito e impõem-se à nossa admiração." (p. 16).

Enfim, após todo esse itálico, chega-se ao texto (ae~ 👏). E depois temos os outros três textos: o primeiro é bem curtinho, duas-três páginas, sobre o autor. No segundo, tem-se um histórico resumido sobre o teatro, os principais autores, os acréscimos que foram surgindo com o tempo etc. Realmente é interessante, aprendi um bocado nessas poucas páginas. Porém, se pensar que não é um livro teórico nem nada, eu, ao menos, questionei-me o por que de um texto com o resumo histórico do teatro se a obra é do século V a.C. Não fez sentido ler sobre as inovações do século XIX considerando isso. Contudo, eu cheguei à minha conclusão: essa coleção não apenas possibilita o acesso a obras clássicas, como também quer que as pessoas compreendam mais a fundo sobre o contexto do que leram ou algo relacionado. De modo a não apenas ler e acabar por ali; assim acrescentando conhecimentos significativos que podem estar relacionados. Com essa conclusão achei plausível a presença desses textos, mesmo não parecendo realmente necessário. Não era meu intuito aprender sobre teatro, mas ok, valeu a pena.

Para finalizar, só dois pontos. Primeiro: fiquei realmente incomodada com a revisão. De verdade. Muitas vírgulas separando sujeito do verbo... Mesmo nos textos complementares! Bom, fazer o quê. Segundo: recomendo a leitura de Édipo Rei antes de ler Édipo em Colono, mesmo que já saibam todo o enredo. A forma como a história se desenvolve é interessante e ajuda a assimilar melhor o caráter dos personagens. Depois disso, recomendo, sim, a leitura de Édipo em Colono, por ser curtinha e interessante. Uma obra que abrange destino, crimes, mitologia – dá pra ler sem entender coisa alguma disso, ok? –, relações familiares, diálogos curiosos e sofrimento. Bastante sofrimento.

"Qual é o homem de nobres sentimentos, que não ama a sua própria felicidade?" (p. 51).

SÓFOCLES. Édipo em Colono. Tradução de Padre Dias Palmeira. São Paulo: Martin Claret, 2005. 161 p. (Coleção A obra-prima de cada autor; 196).

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lucíola, de José de Alencar

Entre clássicos e contemporâneos, parece haver uma distinção um tanto grande, inclusive quando se trata de escolha de obras para o trabalho em sala de aula ou leituras para vestibulares – para estas, inclusive, já existe inúmeros textos abordando os pontos principais da obra, seu contexto histórico, perguntas e respostas de vestibulares já passados e até edições de livros que acompanham, ao final, algumas destas questões, além de textos complementares sobre autor e obra, e até guias de leitura para serem usados em sala de aula. Algumas dessas obras clássicas, conhecidas principalmente por caírem como conteúdo de vestibular, às vezes se propagam e exigem uma certa leitura obrigatória; sendo este um dos fatos pelos quais os estudantes procuram cada vez mais esses textos de apoio que dizem praticamente tudo sobre a obra. Apesar de alguns pontos negativos, não se pode negar que essa leitura obrigatória amplia o alcance da obra e propicia cada vez mais o contato com a leitura. Tanto se diz e se fala, que a obra quase tem uma análise completa pelos inúmeros sites da internet. Seja sobre os aspectos principais, seja sobre a leitura em si. Acaba que comentar esses textos se torna uma tarefa complicada; porque muito (ou quase tudo) já foi dito, e o que não foi é muito provável que seja algo muito específico ou referente a uma experiência de leitura – que envolve mais o leitor do que a obra em si. A mim, isso soa como uma pequena barreira, porque obras assim, clássicas, principalmente se são nacionais e bem-conhecidas, de tão comentadas, parecem que não necessitam de mais um texto repleto dos mesmos pontos de qualquer outro, além de que minha visão limitada nada tem a acrescentar. Principalmente se leio a obra por prazer, distração, e não estudo.

Partindo disso, porém, acabo por cair num beco sem saída, pois todas as obras – ou quase todas – são bastante lidas e comentadas, mesmo as que acabaram de ser lançadas. O que faz com que, nessa linha de pensamento, não faria sentido eu escrever sobre qualquer obra que fosse. Um tanto dramático, talvez? É possível. E ao mesmo tempo pode ter uma outra linha de pensamento, em que "não se está nem aí", que simplesmente se escreve um texto, sem nada a acrescentar e o joga por aí; alguém perderá tempo lendo. Não há certo ou errado. Até acho que já comentei aqui a respeito disso, porque cada vez mais parece que discorrer sobre uma obra se torna sem sentido, se, para a pessoa que escreve, não houver um outro motivo ali incluído. Digo, às vezes só me sinto satisfeita se coloco para fora o que penso de uma leitura que concluí; e esse é um dos meus motivos para escrever. Outro motivo meu é que não quero perder a prática da escrita, porque sei que ela é, mais do que talento ou qualquer coisa que possam dizer, uma questão de emoção e prática. Também considero nisso algo que aprendi na graduação: para se ensinar bem alguém a ler, precisa-se ler. O mesmo também pode estar ligado à escrita. Não que seja obrigatório, mas conhecer o processo na própria prática te permite um conhecimento que livros teóricos podem não te dar nunca. Enfim, cada pessoa tem seu motivo. Mesmo que o texto escrito só venha a se tornar mais um grão numa praia de textos.

Isto foi uma espécie de desabafo, talvez. Bem, junto a isso, e resolvida a levar a cabo as propostas que me impus com este blog (que tem ênfase nos livros clássicos), eis que resolvi escrever meu texto com minha visão limitada de Lucíola – apesar de soar repetitivo, não quero deixá-lo incompleto para quem ainda não conheça a obra –, e dizer o motivo pelo qual eu recomendo a obra, mas não a edição que eu li. Primeiramente, como cheguei a tal edição que li: devido às disciplinas de Literatura Brasileira da faculdade, já havia ouvido falar muito de José de Alencar (1829-1877) – apesar de eu sempre confundir o nome –, e uma colega – nesse momento infelizmente não lembro exatamente quem, já faz um tempo...  me disse que havia adorado Lucíola. A isso somou-se o fato de que recentemente comentaram essa obra comigo; bom, por que não ler, então, já que eu estava realmente querendo um livro pequeno? Pesquisando a obra online cismei com a edição de capa vermelha da Martin Claret; comprei-a. Infelizmente, só quando fui ler é que reparei nas margens pequenas. 💦 Um pequeno empecilho que me faz não recomendar essa linda edição; porque a tal margem fez com que eu precisasse "forçar" um pouco o livro para poder lê-lo e eis o que aconteceu com a capa:

Essa "linha" esbranquiçada do lado esquerdo do livro se formou porque eu talvez ficasse abrindo demais o livro; mas ou eu fazia isso ou teria dificuldades para ler. *sigh*
Essa é a margem que me incomodou um bocado. Geralmente não se precisa abrir muito para poder ler, mas se observar bem, sem "esticar" o livro, mal dá para ler. O lado direito está mais direitinho, o problema de fato é com esse esquerdo... 💧 

Bem, a obra é narrada em primeira pessoa por Paulo (olha só, quase meu xará!), um homem que, ao que sabemos, escreve cartas a uma senhora, e a história que lhe conta resulta em 21 capítulos – imagino que cada capítulo pudesse ser uma das cartas que ela diz ter recebido; mas, não tenho certeza. É esta senhora que reúne tal texto e lhe põe um título, Lucíola, justificando-o como um nome de inseto, que mesmo em meio a uma obscuridade total consegue iluminar-se. Este nome, como ela logo explica, parece sintetizar a essência da mulher que ele lhe retrata. A narrativa de Paulo, por sinal, surge no intuito de explicar à senhora o porque, em seu discurso, dispunha-se a ter tanta indulgência, clemência, com pessoas infelizes que são mal vistas pela sociedade; e acaba por lhe descrever "um perfil de mulher" (p. 23), que foi, para ele, uma grande marca e, também, certa influência. Em seu relato, viemos a conhecer sua história e a de Lúcia, uma das cortesãs mais 'almejadas', desejadas, no Rio de Janeiro, sendo dela o perfil mencionado. Aliás, antes de ler a obra, imaginava que seu nome seria Lucíola, mas vim a descobrir depois, no Recanto das Letras, que Lúcia é seu diminutivo, e significa luz e brilho; assim como Lúcifer. Interessante, não? Bem, Paulo a conhece logo no primeiro dia em que chega ao Rio de Janeiro – tendo vindo de Pernambuco –, e se encanta com sua imensa beleza, sem saber qual era sua 'posição' na sociedade; embora não muito diferente de hoje em dia, naquela época era uma imensa desonra se sujeitar a esta situação, considerada indigna e que lhe dá uma reputação manchada para sempre. A partir daí decorre-se a história de seu encantamento, e pode-se dizer, acho, amor pela moça; e vice-versa.

"De resto, a senhora sabe que não é possível pintar sem que a luz projete claros e escuros. Às sombras do meu quadro se esfumam traços carregados, contrastam debuxando o relevo e colorido de límpidos contornos." (p. 24).

Quanto ao enredo, resta pouco a dizer, dado ser, basicamente, a história dos dois. Encantado com Lúcia, Paulo busca se aproximar dela, embora lhe digam para, de certa forma, tomar cuidado, manter um distanciamento, enquanto conhece a Corte e o Rio de Janeiro em si. Porém, é a ingenuidade dele nessa nova cidade e seus hábitos que o faz "não desistir", o faz querer ainda mais conhecê-la e ser amante dela. Então decorrem encontros e desencontros etc.

Quanto à edição que eu li – da Martin Claret, que faz parte da coleção A obra-prima de cada autor – comenta sobre a obra, inclusive dizendo ser importante considerar o contexto da obra e o fato de que as mulheres retratadas não são mulheres reais, e sim idealizadas. Isso realmente é importante. Porque nesse romantismo, a idealização põe a mulher numa espécie de pedestal – e de lá meio que a mulher não faz coisa alguma; inclusive tem toda a questão de ser 'pura' e 'educada' –, a ser admirada e almejada. Lúcia, considerada um tanto excêntrica e cheia de caprichos, apesar de caminhar em direção a essa idealização, por meio do amor de Paulo – ah, a romantização... o que o amor não faz, não é? –, já começa longe de ser 'pura' e 'casta', afinal, embora cortesã possa ser uma palavra que soe bonitinha, ela vive numa vida devassa, vendendo o próprio corpo. Aliás, é interessante ver que ela se mostra uma personagem complexa e leva a uma dualidade questionadora – cuja explicação é dada mais ao final da história, lhe proporcionando ainda mais, a meu ver, um papel romantizado, de moça idealizada –, às vezes sendo descrita com um ar angelical, e, às vezes, com uma aura diabólica/maliciosa. É da descrição dela, de seus atos e o poder da sociedade sobre ambos que surgem diversos temas e críticas. A começar pelo 'poder' da sociedade de optar pela escolha alheia; a dizer o que é certo ou não. Exemplo seria o quão 'impura' é considerada uma cortesã, capaz de manchar a honra de famílias 'decentes'.

"Há aqui no Rio de Janeiro certa classe de gente que se ocupa mais com a vida dos outros, do que com a sua própria; e em parte dou-lhes razão; de que viveriam eles sem isso, quando têm a alma oca e vazia? Essa gente já sabe quem tu és, que fortuna tens, quanto ganhas, onde moras e como vives." (p. 77).

Outros temas da obra, além da prostituição e devassidão da Corte do século XIX, são a dualidade entre corpo e alma, amor físico e espirital e os preconceitos da época. A análise de Lucíola no site Guia do Estudante expõe bem esses pontos; e a resenha do site Recanto das Letras também traz uma visão bem detalhada da obra e da figura de Lúcia. Recomendo ambos os textos, caso se interessem (mas aviso, a quem isso possa desagradar, que podem ter spoilers). Inclusive o texto do Guia do Estudante comenta o fato do não distanciamento do narrador com a história, mesmo estando contando-a alguns anos após sua história com Lúcia ter terminado – o que se torna muito mais evidente e considerável quando se sabe como essa história termina. Digo, o narrador expõe os fatos como se os estivesse vivenciando, quase que no presente; mas sabe-se que tem um distanciamento, por comentários seus, em vagas análises dos acontecimentos, dirigidos à senhora.

"Mas a senhora lê e eu vivia; no livro da vida não se volta, quando se quer, à página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido." (p. 38).

Disso acho interessante mencionar o estilo do autor; e só após ter comentado com a Helena foi que realmente compreendi que ler uma tradução de clássico nunca é a mesma experiência de ler um clássico no original – e aqui falo de textos em língua portuguesa, porque, né... –, dado que grande parte das traduções, mesmo adaptando a linguagem e tornando-a mais próxima de como seria àquela época, não será e não proporcionará uma experiência de leitura de textos da época na língua originalmente escrita. De início, admito que o estilo de Alencar me surpreendeu um pouco, talvez por fazer tanto tempo que não lia algo parecido, cujas frases parecem utilizar de ordens diferentes; aliás, até o uso das vírgulas me pareceu um tanto diferente (lendo ficava pensando como seria tirar ou colocar uma vírgula aqui e outra ali). Não sei se isso se deve ao fato de que José de Alencar, como menciona um dos textos complementares da edição, tentava se distanciar da linguagem utilizada por Portugal, mas foi interessante pensar depois que achei seu estilo bem distinto, um tanto diferente de Machado de Assis, outro autor do qual já li algumas obras. Esse estranhamento que tive ao início, porém, após a leitura de algumas páginas, foi sumindo ao passo que fui me acostumando ao estilo do autor, de modo que a leitura se tornou um tanto fluida.

"Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo; é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante." (p. 92).

Sobre a edição, apesar das horríveis margens pequenas – que não estão presentes dessa forma em outros volumes da mesma coleção –, é preciso dizer que os textos complementares são bem interessantes, tendo, inclusive, um guia de leitura e algumas questões de vestibular (com gabarito). Sobre o guia de leitura, admito que me senti uma má leitora ao ver que algumas das questões eu não saberia, e ainda não sei, responder. A pior para mim foi: "Em que momento se dá o clímax do enredo de Lucíola?" (p. 153). E eu sinceramente não sei; seria quando sabemos o que acontece com ela ou quando descobrimos sobre Maria da Glória? Ou é ou dois? Ou nenhuma dessas opções? 💦Se souberem, agradeço se me disserem.

Enfim, a obra é considerada um romance urbano e um retrato de uma sociedade, cujos aspectos, em parte, ainda aparecem atualmente. Um ponto particularmente curioso da história é ver essa idealização, a 'redenção' e o encontro com a paz somente por meio desse lado espiritual em contato com a natureza, com a purificação. Bem, mesmo idealizado, e que em alguns momentos eu realmente não compreendi algumas atitudes dos personagens, é uma leitura agradável e que vale a pena. ✌

"Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora." (p. 129).

ALENCAR, José de. Lucíola. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2011. 157 p. (Coleção a obra-prima de cada autor; 100).

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Aos quatro ventos, de Ana Maria Machado

Para quem já costuma escrever, às vezes talvez nem pare para pensar tanto no assunto, mas para quem começa é sempre um mistério até encontrar o caminho e sua própria forma de escrita. A ambos, aliás, essa busca é incessante, pois todo texto é uma nova descoberta (de certa forma), sempre um algo novo a dizer. Dependendo do que se pretende, pelo gênero ou pela mensagem, tem-se que pensar em como ele será, quem o lerá. Se é um comentário, uma resenha, possui um público mais sério ou mais descontraído. Se pode escrever gírias, usar abreviações ou qualquer outro aspecto importante. Às vezes fazemos isso sem nem pensar, automaticamente. Numa conversa pelo WhatsApp, por exemplo, é um estilo; escrevendo um trabalho para a faculdade, é outro. E se for reparar em todos os pequenos detalhes, é uma observação que talvez não tenha fim. Porque a linguagem é isso, um infinito repleto de possibilidades.


Quando tomei Aos quatro ventos na mão, numa feira do livro em Criciúma, não imaginei que a história fosse valer tanto a pena; só queria conhecer a escrita de Ana Maria Machado. Um nome que vim a conhecer nas aulas de Literatura e que deixou um ar de que poderia ter muito mais a se conhecer dela. O livro ficou parado na prateleira por alguns meses até que, querendo ler um livro pequeno, o escolhi. Depois de O pianista (que virou favorito) não esperava grande coisa da próxima leitura; o que acabou sendo uma surpresa agradável. Principalmente porque, e isso pode sim ser preconceito, mas, convenhamos, algumas obras nos fazem pensar isso, é uma obra nacional. A única outra obra nacional que resenhei aqui, Pretérito Imperfeito, mostrou que esse preconceito tem que acabar, que não é só clássico nacional que vale a pena ser lido. Por sinal, não sei se A. M. M. é clássico, mas acho que não. Autora de mais de cem livros, de acordo com a orelha de Aos quatro ventos, ela já ganhou vários prêmios e mostrou que consegue criar uma história simples, mas repleta de pequenas informações que edificam a obra com uma contextualização impressionante.

"Incompetência é uma doença geral, que se alastrou por toda parte, de braços dados com a mediocridade que campeia e ocupa os postos de comando nos mais variados setores." (MACHADO, 2014, p. 111).

Datada da década de 90, a obra, aos poucos, traz elementos da época e alguns até mesmo anteriores, abordando questões como política, economia, e fatos históricos como a Ditadura e o acidente nuclear de Chernobyl de uma forma a dar à obra um momento histórico bem marcado, mas de modo sutil, sem ficar forçado ou superficial. Então, sim, a obra traz assuntos fortes, mas se engana se pensarem que a leitura é pesada. Bem pelo contrário. Ademais, outros elementos fazem com que saibamos que a história ocorre numa época mais delimitada – além da marcação de datas, claro –, como a menção à datilografia e ao uso de disquetes. Eu me lembro dos disquetes, parecia tão moderno...

Porém, mais do que a contextualização e a marcação de uma época, Aos quatro ventos é uma obra que representa a descoberta da escrita por um homem que não tinha ideia de quão prazeroso isso podia ser. Ao mesmo tempo, é também uma história de obsessão, de uma possível maldição e "de amores, que se manifestam pela paixão dos amantes, pela amizade que atravessa oceanos, pela palavra, pela vida e pela liberdade" (trecho da contracapa da obra). A história possui apenas dez capítulos (sim, bem pouquinho mesmo), e neles se intercalam dois narrados, sendo um em terceira pessoa, narrando os acontecimentos que envolvem a família de Guto, o protagonista, e a família da irmã de sua esposa Vanda (professora de Ciências), a Lélia (uma livreira ❤). São bem poucos personagens que realmente "aparecem" na história (só essas duas famílias, que são compostas, ambas, por um casal e um filho). Os outros personagens mencionados são decorrentes de lembranças, e em grande parte são decorrentes dos capítulos narrados em primeira pessoa por Guto, um empresário que descobre que escrever é quase que mágico. Por meio das reflexões dele surgem questões impressionantes, algumas das quais nunca havia parado para pensar, e apontam que a evolução da tecnologia pode, sim, ter influência na escrita  e isso na década de 90, imagina agora! Com internet, redes sociais, mil e uma coisinhas etc.

"Escrever em computador tem essas vantagens. É extremamente higiênico, não se guarda sujeira. Pode ser a escrita da dieta - corta gordura. Ou a escrita do acúmulo, evidente, se o freguês preferir ir acrescentando sem parar. Depende de quem usa.
    Será que alguém já estudou os efeitos do processador de textos na literatura contemporânea? Estudar mesmo, para valer. Se é que já existe uma certa distância para isso, talvez ainda seja prematuro.
     Mas é óbvio que existe uma relação íntima entre o desenvolvimento tecnológico e a evolução da linguagem artística. No caso da literatura, não tenho a menor ideia de como isso se processa, nunca tinha pensado nisso antes, nunca fui muito chegado nesse negócio de escrever." (p. 28).

Tudo isso começa, olha só, por causa da obsessão – quem quiser pode usar a palavra amor aqui – dele pela esposa. E, por alguns motivos, isso se torna um projeto de fim de ano da sua empresa, com todas aquelas questões ambientais, ecológicas etc., cujo foco é o beija-flor. O que explica esse bichinho fofinho na capa da obra (aliás, não achei a capa muito bonita não; bem mais simbólica que bonita), que acompanha os peixes-voadores (esses aparecem logo no primeiro capítulo e depois somem acho). Apesar de não ser um trabalho seu, ele acaba tomando a escrita do projeto para si, e, nisso, vem a sua descoberta viciante. Entusiasmado, começa, cada vez mais, a ocupar seu tempo com a escrita; inicialmente a mão, com os lápis, depois com o processador de textos (acho que é um computador, me corrijam, por favor). A cada dia que passa isso começa a absorvê-lo mais e mais. De início, sua esposa se encanta com a mudança, pois finalmente ela passou a ter uma certa liberdade que nem sabia que sentia falta. Seu marido possessivo, então, passou a deixá-la "de lado" para escrever.

"Tem que ter medo é de si mesmo. Do excesso de confiança. Do delírio de poder. Da obsessão." (p. 44).

Porém, conforme essa nova obsessão vai se alargando, Vanda começa a notar que não é uma obsessão saudável, que aos poucos o está fazendo se afastar do trabalho e dos amigos; da vida social num todo. Por um lado, pode-se notar como qualquer obsessão ou vício pode, se não controlado, se tornar isso, um empecilho, deixar a pessoa "cega". E pode ser uma das interpretações iniciais. Por outro lado, não dá para deixar de dizer que quem leva a escrita a sério, de verdade, pode acabar realmente tendo esses momentos de isolamento, de fuga completa do convívio social, e que escrever também serve como uma válvula de escape, um momento em que as emoções podem explodir em palavras escritas, ser, até mesmo, um alívio. As reflexões sobre escrita que podem ser feitas a partir da leitura dessa obra são várias e não convém mencionar tudo aqui (é muita coisa mesmo). Além disso, há outras coisas relacionadas que também aparecem, como ser leitor, e leitor de ficção.

"- É que ficção (principalmente quando é boa) dá às pessoas essa oportunidade única que é a de viver outras vidas - respondeu Lélia. - Estar em outras situações, outros ambientes, enfrentar outros dilemas que jamais se apresentariam iguais na própria vida do leitor, tomar decisões éticas cruciais, julgar os diversos lados de uma questão. E em segredo, sem testemunhas, com toda a liberdade para imaginar como quiser." (p. 115).

Enfim, apesar de toda a maravilha da obra, senti que algumas partes ficaram meio fracas, mas nada que faça a leitura não valer a pena; vale sim, recomendo! É uma obra rápida de ler, dois dias e puf, acabou. Gostaria de comentar sobre o final, mas talvez seja spoiler demais; refere-se a tal maldição ligada ao passado que a contracapa menciona. Quem sabe, com a leitura da obra, não descubram que maldição é essa? Fiquei bem surpresa, embora não sei se gostei ou não disso...


"Hoje eu sei que os homens são só uma poeira nesta casca do planeta, 
cisco que vai de um lado para o outro e mal arranha a superfície." (p. 31).

MACHADO, Ana Maria.  Aos quatro ventos. 3. ed. Rio de Janeiro: Obejtiva, 2014. 146 p.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O pianista, de Wladisław Szpilman

É curioso como os textos que acompanham uma obra (e não são escritos pelo autor) podem trazer um "ar" diferente e lhe fazer entrar na leitura de uma forma tão diversa. Com esses textos eu me refiro aos prefácios, às notas de tradução ou outros textos afins. Na dúvida (tão comum) de que obra ler, peguei o livro O pianista na mão e o folheei, meio aleatoriamente mesmo (e notei, infelizmente, que o meu exemplar veio com uma "falhinha" na ponta de uma das páginas; felizmente, não prejudica a leitura), até que decidi ler a primeira página e me deparei com um texto, intitulado Alguns comentários do tradutor, escrito por Tomasz Barcinski, o tradutor dessa obra, claro (e, isso é legal, diretamente do polonês!). Apesar de que só a primeira frase já havia me convencido a lê-lo, o texto num todo é muito interessante, até por abordar questões de tradução.

Essa obra é impressionante, e sem dúvidas a recomendo muitíssimo! ❤
Claro que é triste, trágico, e incomoda saber todas essas coisas que já aconteceram, mas saber uma parte do que foi é uma forma de conhecimento, de nos mostrar o outro lado das ações humanas, e, quem sabe, não repetir parte do lado negativo dessa história. (É de propósito os livros no fundo, sim. São todos sobre guerras.) 

Em 1939, teve início a Segunda Guerra Mundial, que se prolongou por alguns anos  de muita violência, ódio, preconceito, medo –, até 1945. Apesar de terem sido poucos anos, as marcas deixadas por essa guerra foram imensas, houve muita violência, muito ódio/preconceito foi propagado, milhares foram mortos – sem distinção entre criança, jovem, adulto ou idoso; homem ou mulher –, muitas famílias foram dizimadas e destruídas; aos que sobreviveram, não é fácil compreender como deve ter sido realmente sobreviver a isso, e vários relatos mostram que nem sempre é algo bom, feliz. O sofrimento pelo qual passaram e continuariam passando é grande demais para ser medido, principalmente em poucas palavras. Nisso é importante considerar que o clima tão devastador, horrendo e violento não poderia simplesmente ser "apagado" e a vida voltar ao normal; ao que parece levou muito tempo e muito mais sofrimento até que a vida de todos que foram arrasados por esse período pudesse "voltar aos eixos". Mesmo sabendo que não se pode apagar o passado – porque isso não é 1984 –, as pessoas precisam juntar o que restou de suas vidas e erguê-las ao máximo possível de uma nova rotina, até chegar a um "comum". Sobre esse período pós-guerra, aliás, é interessante ler o texto referente à obra Continente Selvagem, que foi lançada pela Zahar.

"Isso já não era brincadeira: os pisos e as paredes dos abrigos vibravam, enquanto bombas caíam por toda a cidade e certamente cada uma delas, tal como uma bala de roleta-russa, ao acertar uma casa em cujo porão abrigava-se alguém, significava a morte." (SZPILMAN, 2008, p. 24).

Nesse período, alemães expuseram uma grande variedade de violência contra os judeus, matando-os aos milhares, por vezes só para propagar um clima de tensão e de superioridade. Nunca entenderei essas pessoas. Foi um período que, posso estar enganada, uniu tanto o mau radical, que ignora totalmente o outro como ser humano, quanto o mau banal, aquele que "simplesmente" opta por não pensar*. Porque a guerra não tem um lado só, uma perspectiva apenas. E mesmo julgar alguém nesse meio não é algo fácil ou simples. Ao mesmo tempo em que havia soldados que matavam e utilizavam da violência como se estivessem fazendo algo pela própria vontade deles, acreditando estarem completamente corretos, houve também quem não concordasse com o que estava acontecendo, mas não sabia ou não tinha coragem de se rebelar e agir de modo diferente; porque a desordem, nesses casos, pode facilmente ser punida com morte. É realmente uma questão complicada... Que ficará em aberto, porque não tenho "bagagem" para ir além disso.

Na obra, vemos a visão de Szpilman, um judeu, sobre esses anos de guerra, desde a invasão da Polônia até o momento da "derrota" dos alemães. Pelo olhar de Szpilman fica fácil perceber a mudança drástica que a força e a invasão alemã causaram à Polônia, contrastando os momentos pré e pós-guerra. De uma cidade movimentada a um deserto; de uma vida confortável ao risco de morrer por inanição.  as bombas já causaram uma destruição imensa, e se engana quem ousar pensar que isso era o pior. Quando Varsóvia caiu nas mãos dos "arianos", muitos judeus foram mandados para um bairro criado especialmente para eles – isolando-os. Ergueu-se, então, muros delimitando uma parte da cidade. O apartamento de Szpilman e sua família, de certo modo por sorte, já que não precisaram procurar outro espaço para morar, ficava dentro dos limites do que foi chamado de "gueto". Isolados por esses muros e pelo patrulhamento dos alemães, o gueto acabou sitiando milhares de judeus, das mais diversas classes sociais etc. Uma "minicidade", em parte assolada pela fome, que não tinha a perspectiva de uma paz tão cedo; episódios chocantes e desumanos são presenciados. Uma reflexão de Szpilman sobre liberdade em meio a isso é completamente surpreendente e acredito ser difícil alguém terminar essa leitura sem um pingo de tristeza. Do outro lado do muro, os alemães se estabeleciam em Varsóvia e se ocupavam em manter os judeus sob extrema tensão e perigo de morte. Como o autor expõe, havia, inclusive, certas regras que, se quebradas, corria pena de morte; como o "toque de recolher", um horário no qual não podiam mais andar pelas ruas, pois, se pegos, poderiam facilmente ser mortos. Havia, inclusive, as łapanka. E frequentemente, por qualquer pequeno motivo ou por motivo algum, os alemães fuzilavam os judeus na rua. Essas ações, que demonstram uma violência e ignorância desnecessárias, principalmente se vistas pelo olhar de agora, são descritas em algumas cenas fortes, tristes e que sensibilizam muito.

Achei um pouco extenso para colocar como citação, então bati foto dessa parte, que acho importante mencionar. Faz parte da nota do tradutor (já disse que achei essa nota incrível? ❤) Considerando o contexto, aliás, faz muito sentido não ser traduzido, não é?

Umas das cenas mais tocantes do livro, aliás, é o momento em que ele se separa de sua família. Aos poucos já se sabe que isso vai acontecer, por pequenos trechinhos que Szpilman expõe, naquela sintonia de escrever sobre o passado, na tristeza de saber que aquela foi a última vez ou que seria diferente se tivessem tido mais tempo. Enfim, é um relato de um judeu na guerra, podem imaginar o que pode conter aí.

"Outras crianças tentavam sensibilizar o coração das pessoas dizendo: 'Estamos, realmente, com muita, muita fome. Não comemos há muito tempo. Deem-nos um pedaço de pão, ou, pelo menos, uma batata ou uma cebola, para que possamos sobreviver até amanhã.' 
Mas quase ninguém tinha uma mísera cebola, e mesmo se alguém tivesse, seu coração não mandaria cedê-la. A guerra havia transformado os corações em pedra." (SZPILMAN, 2008, p. 75).

Sobre o relato de Szpilman, vale ressaltar, ainda, dois pontos. Primeiro, a respeito do título. Ele era um pianista, e trabalhava numa rádio. No decorrer das páginas vamos vendo que ele realmente leva isso a sério e até parece ser um de seus impulsos para seguir em frente; em alguns momentos, principalmente nos primeiros anos da guerra, ele se preocupa com sua carreira após a guerra, e tenta proteger suas mãos para que não precise desistir do piano para sempre. Pode parecer um pouco bobo, mas é uma atitude bonita; a música para ele, parece, era mais do que notas uma atrás da outra. Um ponto sutil, mas com certo encanto, refere-se a última música que tocou antes de a rádio em que trabalhava "fechar" por causa da guerra. A mesma música, Noctune No. 20, de Chopin, fora tocada quando esse período estava terminando, o que seria o "fim" da guerra.

O segundo ponto refere-se à escrita de Szpilman, e, quanto a isso, jamais falarei melhor do que Wolf Biermann, no epílogo do livro. Portanto, segue as palavras dele:

"[...] embora este diário tivesse sido escrito 'a quente', pois surgiu quando as ruínas ainda fumegavam e ainda ardiam as cinzas da Segunda Guerra Mundial, a linguagem usada por Wladysław Szpilman é, surpreendentemente, serena. O autor descreveu tudo por que acabara de passar com um distanciamento quase melancólico. Tenho a impressão que ele ainda não havia voltado a si totalmente depois da viagem por círculos infernais e relata os fatos como se tivessem sido presenciados por outra pessoa; por alguém em quem ele se havia transformado quando a Polônia foi ocupada pelos alemães." (Wolf Biermann, no epílogo Uma ponte entre Wladyslaw Szpilman e Wilm Hosenfeld)

A obra é pequena, pode ser lida em poucos dias, mesmo com intervalos no meio, mas mostra ter um peso imenso, um pedaço de uma história que mostra muitas outras. Histórias que se intercalam, se sobrepõem, se respeitam ou se aniquilam. Pessoas que pensam, que amam e que vivem; pessoas que simplesmente seguiam. Judeus e alemães, apesar de serem definições fortes e marcadas por suas histórias, não podem ser considerados como rótulos. Porque são só isso; as pessoas, por 'n' motivos, veem mais do que há. Infelizmente, ainda é assim. É um círculo que talvez não tenha fim, só muda a intensidade.

Enfim, já não bastasse o incrível relato de Szpilman, ao final da obra somos apresentados a uma parte adicional, composta de fragmentos de cartas do alemão Wilm Hosenfeld. Sem saber a respeito dele, não é curioso ter textos de um alemão num livro de um judeu que sofreu por causa dos alemães? Pois é, é surpreendente: o conteúdo é incrível!

"Tudo leva a crer que a humanidade está condenada a fazer mais mal do que bem. O amor ao próximo é um dos maiores ideais sobre a terra." (W. H., em 26 de junho de 1942).

"Todos os seres humanos têm dentro de si maldade e instintos animais que afloram quando não são coibidos. Sim, é preciso ter os mais baixos instintos para perpetrar esses homicídios entre os judeus e os poloneses." (W.H., em 13 de agosto de 1942).

"Os mentirosos e falsários terão que desaparecer e perder o seu poder ditatorial para que a dignidade possa voltar a reinar entre os homens." (W.H., em 21 de agosto de 1942).

Por fim, e terminarei o texto com uma citação, queria mostrar que até mesmo o aspecto religioso aparece no texto de Hosenfeld. Sabem aquela questão de "por que Deus permitiu isso?"? Imaginem o quanto ela não deve ter surgido nesses momentos! E o quanto não está por trás dela, não é? Não precisam ser grandes eventos, aliás, para que ela surja, mesmo quando é algo menor e regional, uma morte isolada, ela aparece. Não sou religiosa, mas mesmo assim gostei bastante de pensar a respeito – sobre nosso livre arbítrio e o que fazemos com ele. Descobri recentemente, aliás, que um filósofo, ou algo assim, há muitos anos, veio em defesa e expôs algo que perpassa no discurso de W. Hosenfeld.

"Por que Deus permitiu esta guerra terrível com as suas incontáveis vítimas? Refiro-me aos desumanos ataques aéreos, o pavor incutido na inocente população civil, as sevícias cometidas nos campos de concentração e o assassinato de centenas de milhares de judeus. Será que Deus é culpado? Por que não intervém, por que permite que tudo isso aconteça? São perguntas que podem ser feitas, mas não podem ser respondidas. A saída mais fácil é a de tentar jogar a culpa nos outros. Deus permite a maldade porque foram os homens que a escolheram; mas agora, graças à maldade e à imperfeição humanas, hão de sentir os infortúnios que cairão sobre eles. Nada fizemos para impedir a ascensão do nazismo e traímos os nossos próprios ideais - os ideais de liberdade individual, da democracia e da escolha religiosa" (W.H., em 6 de julho de 1943).

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* Sobre isso, recomendo a leitura do texto A propósito da problemática do mau em Hannah Arendt, de Odilio Alves Aguiar. O texto está disponível neste link. Não é um texto muito fácil de ler, e eu admito não ter entendido muito, mas a leitura vale a pena para os interessados. Inclusive participei de uma aula em que discutiam esse texto e foi bem interessante. Durante o debate foi tocado bastante no mau banal e em como as pessoas, em momentos de guerra e semelhantes, são capazes de matar sem remorso etc. Enfim, vale a pena ler.

SZPILMAN, Wladisław. O pianista. Tradução de Tomasz Barcinski. 2. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. 224 p.

quarta-feira, 29 de março de 2017

O problema de não ler /&/ A violoncelista, de Michael Krüger

"Todo mundo sempre deixa algo de si para trás, porque esse algo não cabe mais em sua vida; no entanto, nem por isso, tem a sensação de ter ficado mais pobre." (KRÜGER, 2002, p. 209).

Uma onda de desânimo fez com que eu abandonasse a leitura de A violoncelista por alguns dias, até enfim voltar a tomar a obra em mãos. Não porque o livro seja ruim, não o é; até achei-o muito bom, apesar de eu ler uma boa parte sem entender direito, porque não são temas que eu entenda (história, música...). Soma-se isso ao fato de eu lê-lo aos poucos, o que contribuiu para que eu fosse esquecendo e me distanciando da obra mesmo durante a leitura. Nesse momento em que larguei o livro, por bastante tempo pensei na questão de abandonar as obras, do momento certo para ler determinado livro e, até mesmo, se há um problema em passar dias sem pegar um livro na mão. É provável que alguns pensem logo que não sou uma "verdadeira" leitora, ou leitora compulsiva, e não sou mesmo. Por sinal, antes disso, por algum tempo fiquei pensando que, na verdade, eu leio pouco mesmo agora tendo tempo até de sobra. Parecia um problema, até. Como pode alguém ficar dias sem ler e se considerar um leitor?! Pois é, o problema é justamente esse exagero. Posso ler um livro por ano e continuar sendo uma leitora; e não deveria me sentir mal por isso. Ou posso ler 50, ou 100 ou 200, como algumas pessoas inacreditavelmente conseguem; e me sentir da mesma forma que alguém que leu dez. Só que a qualidade é sempre melhor que quantidade, então se é um ou mil livros por ano, não faz diferença, desde que nesse um eu tenha feito uma boa leitura. Isso parece um pouco com uma desculpa, mas no fundo é o que importa, não é?

Sim, eu sei que seria mais certo se fosse um violoncelo, mas não tenho um. Então é meu violino mesmo que eu não sei tocar. ❤

Para tentar me animar e voltar à leitura de A violoncelista, busquei resenhas da obra, pois quem sabe um elogio à obra me servisse de impulso; infelizmente, não encontrei sequer uma resenha, seja positiva, seja negativa, seja neutra. E, até esse momento, eu estava decidida a não escrever sobre essa obra, justamente devido a esse meu distanciamento com a obra e tudo o mais. Só que não encontrar nenhuma resenha de um livro tão bem escrito é algo muito triste; e um fato que descobri ao final da minha leitura me fez decidir que, mesmo sendo vago e impreciso demais, iria expor um pouco num texto sobre essa obra que parece um pouco esquecida nas páginas de pesquisa do Google das quais me servi. Portanto, a opinião aqui é realmente imprecisa, mas serve apenas para dizer: leiam, que vale a pena.

"E era evidente também que aquele homenzinho magérrimo escolhera a mim para recontar sua vida e advertir a não amontoar tanta coisa começada e inacabada, de que não pudesse me livrar depois." (KRÜGER, 2002, p. 97).

Uma das surpresas da obra de Michael Krüger, percebida nos primeiros capítulos, é que o livro praticamente não dispõe de um diálogo sequer traçado com travessão ou aspas. Exatamente, sem as marcas habituais a que estamos acostumados; pode parecer estranho e confuso, mas serviu muito bem à narrativa. Claro, para quem já leu Saramago pode facilmente associar a ele e ter uma ideia de obra nesse estilo. Só que há uma diferença: Krüger tem uma narrativa mais "precisa" e facilmente identificável de quem está falando o quê, ao contrário do que se vê em Ensaio sobre a cegueira. Vale considerar, aliás, que há pouquíssimas falas no decorrer do livro. O que dá ao livro um tom de narração de memórias tão bonito que chega a ser admirável. (Isso não foi irônico). Esse estilo empregado é fluido e, de certo modo, possui uma elegância que me encanta. Ou pode ser porque prefiro histórias assim, cujo personagem num determinado presente relata suas memórias do passado, nem sempre em ordem cronológica.

A obra, narrada em primeira pessoa, conta a história de um compositor na faixa dos cinquenta anos que deseja produzir uma ópera baseada nos textos do russo Ossip, projeto que, aparentemente, ninguém o apoia; apesar de ter produzido algumas músicas com teor mais clássico (imagino que não esteja errado dizer assim), sua fama decorreu das trilhas que produziu para programas de TV. Seu projeto sobre Ossip, contudo, parece cada vez mais longe de ser concluído quando ele recebe a visita de Judit, a filha de sua amiga Maria. O protagonista sequer sabe quem é o pai de Judit, e possui suas dúvidas sobre possivelmente ser seu pai. Não bastando isso, a jovem parece imitar as ações de Maria, fazendo-o relembrar de seu passado, e, também, parece virar sua rotina de cabeça para baixo, retirando-o de seu sossego.

"Cada um tem seu espaço, a ele destinado. Às vezes, é necessária uma vida inteira para encontrá-lo e, ainda assim, não ocupá-lo, porque, de tanto procurar, ficou-se cego para suas qualidades." (KRÜGER, 2002, p. 161).

Interligado ao enredo, vê-se muitos apontamento sobre arte, música e mesmo um pouco sobre história. Apesar de que não tenho base suficiente para comentar a respeito, parece-me certo dizer que o escritor tem bastante conhecimento sobre o que apresenta, pois seus questionamentos são por vezes intrigantes. A isso junta-se um drama sobre o personagem cuja vida parece desbotada, mas que não o percebe e continua rememorando a vida e pensando nas suas obras produzidas.

"A arte afastara o homem da sociedade; a partir do momento em que todo mundo passara a poder tornar-se artista, a profissão se fizera almejada e o Estado ou a sociedade haviam sucumbido àquele fato, criando mais e mais institutos a conduzir a massa de aspirantes a artistas, todos autodenominando-se artistas formados depois de oito semestres de estudos, mas desprovidos da mais vaga ideia do que fosse a arte." (KRÜGER, 2002, p. 121).

A obra toda intercala, em sua narrativa encantadora, uma espécie de drama, uma confusão e diversos questionamentos que fazem com esse não seja um livro apenas sobre o reencontro com o passado e os obstáculos que fazem com que a vida aos poucos possa ser desbotada se não tomarmos cuidado. Embora alguns pontos pareçam ter ficado um pouco vago (ou talvez eu não tenha entendido bem, pode ser), de modo que me parece que poderia haver um aprofundamento ainda maior acerca de alguns personagens, não posso deixar de pensar que no estilo narrativo não havia necessidade de se explicar o que foi deixado de lado. Porque alguém pensando na sua vida não fica explicando tudo nos mínimos detalhes para si mesmo; nós, leitores da vida alheia, é que temos essa curiosidade que parece que necessita ser preenchida. Por um lado, quem sabe uma releitura e uma mente posta para funcionar consiga preencher esses espacinhos vagos. Por outro, fica o pensamento de que às vezes os autores realmente não querem nos dar todas as respostas/explicações de bandeja (um resquício de maldade, será?).

"Quanto mais mergulhava na leitura sobre os campos de concentração, mais impossível foi se fazendo para mim conceber uma música que transmitisse sequer um eco longínquo de todo aquele sentimento." (KRÜGER, 2002, p. 174).

Só ao término da leitura, nas últimas cinquenta páginas, foi que comecei a pensar que a história parecia um pouco "real" demais em alguns pontos, o que me fez recorrer ao Google e descobrir que Gyorgy, nome do narrador-protagonista, é o nome de um compositor que de fato existiu e, olha só!, até mesmo foi compositor da trilha do filme 2001 (cujo livro ainda lerei). Bom, é isso, sei que ficou um pouco vago, mas espero que tenha servido ao propósito.

"Em todas as demais horas que passo acordado,
entrego-me a comparações, o que faz com que, várias vezes ao dia,
sinta-me tentado a jogar a toalha." (KRÜGER, 2002, p. 20).

KRÜGER, Michael. A violoncelista. Tradução de Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 213 p.